1.3.14

[Coluna Zofia] Agora não dá.

1.3.14

       — Oi mãe. — O garoto tinha acabado de chegar da faculdade e, como todo jovem desnaturado, tinha largado a mochila no sofá e ido até a geladeira pegar algo pra comer.
       — Chegou uma carta pra você. Está em cima da sua cama. — Com aquelas palavras, a mãe do rapaz fez com que o coração dele começasse mortais dentro de seu peito. Ele a olhou por um tempo sem dizer nada. Ela sorriu com o canto da boca, notando a apreensão do filho. — Sim, é dela. Da garota que mandou seu presente de aniversário no mês passado. — Ele engoliu seco.
        Eles não se falavam a dias, talvez umas três semanas, o que teria pra ser dito em uma carta que não poderia ser dito e respondido mais rápido se fosse pelo celular ou computador? Seu estomago revirou só de imaginar. Não pensou duas vezes e andou até seu quarto, ignorando a ideia de comer algo. Sentou na cama, segurou o envelope azul em uma das mãos e ficou analisando a caligrafia que tinha preenchido os endereços do remetente e destinatário. Era tão obvio que uma garota como ela usaria envelopes coloridos, não sabia por que ainda não tinha imaginado isso antes. Sua letra era horrível pra ser a letra de uma garota. Mas ainda assim, ele gostava, por mais estranho que isso parecesse. Abriu o envelope. Mas não pegou a carta ainda. Passou a mão livre pelo cabelo e respirou fundo. Ah, aquela maldita garota com seus malditos métodos antiquados. Ela não sabia que ele leria mais rápido se fosse por whatsapp? Skype? Ou qualquer uma das redes sociais? Segurou a carta e ficou agitando-a por um tempo, batendo-a sobre sua perna. Jogou as costas sobre a cama, ergueu a carta no alto, de forma que ele conseguisse ler e tornou a respirar fundo. Ok. Chega de prolongar o martírio. Abriu a carta e, somente, a primeira frase o fez sorrir.
“Oi, meu bem.
Já faz uns dias que a gente não conversa, achei melhor (e mais poético) mandar o que tenho pra dizer nessa carta. Estou te escrevendo talvez como um basta em todo o sofrimento que estamos vivendo. Ou que eu estou vivendo e você aturando, não sei ao certo. Nós dois sabemos que essa coisa de distância não está dando certo. Sabe o que eu acho? Deixa pra lá. Não adianta ficar adiando o que sentimos até nos encontrarmos, dizendo que agora não dá. Eu gostaria muito de te ter hoje, amanhã e depois. Mas não posso e nem vou te esperar. Não vou te prender. Deixa a vida seguir, tanto aí, quanto aqui. Esse lance de “um tempo” nunca me pareceu certo, nunca pareceu funcionar. Só te peço que me mande um sinal de vida, seja lá onde estiver, para que eu tenha a chance de saber que você está bem, assim, ficarei bem também. Espero que você encontre alguém por aí, alguém que realmente vá te fazer feliz. Eu realmente prefiro pensar em você deitado no colo de alguma garota legal, do que sentindo essa dor, da saudade que sinto de você. É uma dor tão ruim, que eu não desejaria pro meu pior inimigo, imagina pra você... Eu ainda quero te ver. Ainda quero dar a volta ao mundo por você, se for preciso. Ainda vou dormir rezando para que você se encontre, se entenda e perceba que... O que falta em você, sou eu. Mas é o que eu digo, deixa pra lá, por que de anda adianta ficar falando que “agora não dá”. Então, me resta dizer, até.”
         Por fim, a maldita garota, com seus malditos métodos antiquados, estava certa em ter mandado a carta escrita a próprio punho. Combinava muito mais com o momento do que uma mensagem de texto. Tinha exigido um certo esforço dela, demonstrando mais afeto do que o normal para os tempos atuais. Era poético, literário. Como ela. Ele sorria, mas no fundo, uma dor alucinante zumbia dentro dele. Porém ela tinha razão em cada uma das frases ditas ali. Uma brisa leve, por conta da janela aberta, passou no quarto levantando o perfume dela vindo do envelope. Será que era o perfume dela mesmo? Diante da carta, talvez ele nunca mais fosse saber. Então, só restava pra ele, deixar aquele papo de “agora não dá” e seguir com expectativas naquele “até”.

Nota de rodapé: Esse texto foi baseado na música “Pra você dar o nome” do 5 a seco. É uma música linda, com uma letra maravilhosa. Então fica aí, além do texto, uma super dica musical.

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