6.4.16

Meu eu poético | Cinderela sem salto

6.4.16
Imagem do DeviantArt
O cenário que garante uma noite insuportável e muito desgraçada, pelo menos pra mim. Uma multidão realmente desagradável estava a minha volta, "nunca mais venho em uma balada" era a frase que gritava na minha mente enquanto eu tentava me equilibrar no salto, segurar um copo de bebida, cuidar da minha bolsa e dançar aparentando feliz  pras minhas amigas. Estavam me empurrando e me jogando pra cima de outras pessoas, e tinha 48% de chance da minha cara estar completamente borrada de batom.
-Clarinha, preciso de ar- falei no ouvido da minha amiga.
-O QUE FOI ALICE?
-AR! PRECISO DE AR!
-AAH! VAI LÁ, A GENTE TE ESPERA AQUI!
Ela fez uns sinais com a mão, e entendi que estava tudo bem eu sair um pouco. Fui em direção ao fumódromo. Estava relativamente vazio, poucas conversas. Mais agradável do que dentro da boate, fato. Larguei meu copo em um canto e encostei em uma parede. Olhei pro céu. Que noite bonita! Ergui uma de minhas pernas até uma altura em que minha mão alcançava e desabotoei o fecho do salto, tirei e o segurei na mão que antes tinha um copo, fiz o mesmo com o outro. Respirei e deixei meus pés sentirem o chão gelado enquanto movia meus dedos -que alívio!
Sentei num banco, coloquei meu salto do meu lado e comecei a revirar a bolsa, peguei um cigarro e o coloquei na boca, voltei a revirar a pequena bolsa em busca do isqueiro, não o achava. Tirei algumas coisas de dentro e nem sinal do isqueirinho azul que andava me acompanhando.
-Droga! - Exclamei um tanto audível, o máximo que consegui com um cigarro na boca, e com cara de desolada comecei a guardar as coisas na bolsa.
-Quer um isqueiro emprestado? - a voz masculina veio de alguém que estava sentado ao meu lado. Levei um pequeno susto, uma vez que nem havia reparado em sua presença.
-Ah sim... -peguei o isqueiro de sua mão e ascendi meu cigarro -Obrigada - disse devolvendo o objeto para a mão de seu dono.
Ajeitei-me no banco e sentei com minhas pernas dobradas "de índio", abaixei o máximo meu vestido e coloquei meus sapatos e a bolsa no meio das pernas.
-Bonito sapato- ele disse meio rindo.
-Ahn... Obrigada! -Respondi meio receosa.
-Desculpe, não queria te deixar desconfortável. Achei engraçado eles não estarem nos seus pés. Sabe... Todas as garotas aqui não costumam carregar os sapatos nas mãos.
-Ah! É que meus pés estavam doendo, não gosto de usar salto, não gosto muito desse lugar também, e talvez não seja igual a todas as garotas daqui.
-É você parece diferente mesmo... Digo um diferente bom, sabe? - Ele sorriu como uma espécie de risadinha sem som e seus dentes brancos se destacaram na pouca luz do ambiente. Foi então que eu reparei nele, era bonito. Usava uma camisa branca que combinava com o sorriso, olhos castanhos e profundos, e tinha mãos firmes pelo jeito em que segurava seu cigarro.
-Acho que na sociedade monótona em que vivemos, ser diferente é sempre um elogio né? -Dei uma tragada no meu cigarro, houve uma pausa silenciosa, me virei pra ele e estendi a mão-Alice.
-Lucas - ele apertou minha mão. - Então Alice, se não gosta desse lugar por que está aqui?
-Hmmm essa é uma boa pergunta. Pra ser sincera, nem eu mesma sei responder ela. -disse rindo- Acho que só vim por que minhas amigas insistiram muito.
-Foi persuadida então. E onde estão suas amigas?
-Devem estar dançando... Ou bebendo... Ou os dois juntos. Tive que sair de lá, não gosto de multidões e música alta.
-Compreendo... A Alice diferente que eu conheci, iria preferir ficar aqui fora conversando com um estranho mesmo...
Dei risada. Continuamos a conversar. Lucas me contou que é fotógrafo e se mudou pra São Paulo há pouco tempo, pra trabalhar. Contei a ele sobre meu tcc do curso de engenharia química. Falamos sobre o quão pouco ele ainda conhece a cidade, me ofereci para levá-lo em um tour pelos meus lugares favoritos. Demos risada das pessoas bêbadas a nossa volta. E tivemos poucas pausas silenciosas para fumar. Começo a ouvir um som familiar, o toque do meu celular.
-Licença rapidinho. -falei enquanto deslizava o dedo na minha tela para atender - Oi Clarinha. Ah! Estou no fumódromo ainda. Vocês já saíram? Não! Já tô indo, me esperem aí. Tá. Beijo. -Olhei a minha volta e já estava clareando o dia, incrível como o tempo passou rápido- Eu vou ter que ir embora já.
-Tudo bem! Por que não anota meu número?
Salvei seu numero no meu celular e disse que quando eu lembrasse mandaria uma mensagem.
-Quer ajuda pra por o sapato? -Ele disse enquanto se abaixava pra abotoar o fecho. -Seu pé fica bem nele.
Dei risada e agradeci. Despedimos-nos e saí.

No táxi a caminho da casa de minhas amigas, pensei bastante na noite. Lembro que não estava com vontade de ir e completamente desanimada. Mas foi uma noite agradável, agradeci mentalmente a mim mesma por ter ido, e sorri pra janela do carro. Quando chegar em casa, mando uma mensagem.

Um comentário:

  1. Sei lá, só adorei muito seu texto mesmo! E depois, o que aconteceu com Lucas e Alice?? <3
    Beijos, adoro seu blog!
    http://anpartofme.blogspot.com.br/

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